Os truques que Mr.M não revela (Martha Medeiros - 19 de abril de 1999)
Os truques que Mr.M não revela (Martha Medeiros - 19 de abril de 1999)
Sacana ou não, todo mundo adora quando Mr. M revela o segredo das mágicas mirabolantes que sustentam os ilusionistas. Tigres que desaparecem, mulheres cortadas ao meio, pessoas que levitam, nada mais nos surpreende. É um dedo-duro esse Mister M, e os mágicos têm toda razão de querer socá-lo dentro de uma cartola e despachá-lo para Kuala Lampur com a passagem só de ida. Seguirá Claudia Schiffer fazendo aparições ao lado de David Coperfield, agora que ele está a um passo de pedir esmolas? Mistério. A bem da verdade, acho Mister M um estraga-prazeres, ainda que a curiosidade me impeça de boicotá-lo. Mas eu seria sua fã número 1 se ele revelasse como funcionam os truques de um relacionamento a dois.
1. Você sai com um cara, pinta um clima, ele pede seu telefone e a deixa em casa. Você achou o cara legal, nada além disso. Está na cara que não é seu príncipe. Dia seguinte, ele não liga. Tudo bem. No outro dia, ele não liga de novo. Você começa a achá-lo muito legal. No sábado seguinte, o telefone segue mudo. Você está troncha de saudades. No domingo ele liga, combina um cinema e você, ao desligar, está completamente apaixonada. Como é que ele conseguiu isso?
2. Você sai com um cara, pinta um clima e ele pede pra você ligar no dia seguinte. Você, claro, não vai dar mole. Dia seguinte, meio-dia, você olha para o telefone e pensa: Ele que espere. Às três da tarde, pensa: Se eu ligar, ele vai achar que estou a perigo. Às cinco: Mas ele pediu, coitado. Às seis e meia: Se eu não ligar, ele vai achar que não estou a fim. Às sete: Vai achar que tenho outro. Às oito você liga, o telefone dele está ocupado e você começa a rugir pela casa. Como foi que ele a transformou numa onça?
3. Vocês terminaram um namoro de seis meses. Quando estavam juntos, você o achava mal-vestido, desbocado, galinha e insensível. Agora que ele se foi, você acha que ele tinha um olhar doce, ótimas pernas, um belo emprego e sintonia fina com você. Que diabo, como é que ele conseguiu virar outra pessoa?
Entregue-os, Mister M.
O lado bom de falar demais (Martha Medeiros – 28 de março de 1999)
O lado bom de falar demais. Verbalizar o que se sente e o que se pensa é o caminho mais curto para uma tomada de atitude.
Um dos maiores defeitos femininos, segundo critério masculino, é a falação. Homens são econômicos, monossilábicos.
Mulheres falam demais. Querem esmiuçar os fatos, entrar em detalhes, dizer tudo o que sentem, tudo o que fizeram anunciam todos os seus passos. O sono de uma mulher é quase tão comemorado quanto o sono dos bebês. Silêncio, que dádiva.
Tudo isso é verdade, mas será mesmo um defeito? Estou para concluir que nosso talento para a verbalização é que fará toda a diferença no próximo milênio, quando as mulheres estiverem liderando o planeta.
Sei, o Dia Internacional da Mulher já passou, perdi o bonde. Mas sigam a pé o meu raciocínio: quanto tempo leva um homem, numa reunião de negócios, para expor um planejamento? Não se aceitam monossílabos em reuniões, nem "hum-hum", e muito menos "não quero falar sobre isso agora". Exige-se sujeito, verbo e predicado. Os homens, mal-acostumados com orações completas, patinam, repetem-se, abusam de metáforas e piadas para descontrair a tensão que é falar. Mulheres, com seus anos de janela, vão direto ao que interessa.
Pense em como isso é uma vantagem espetacular na política. Pense em como dona Ruth é mais objetiva do que FHC, em como Marta Suplicy é mais direta do que o marido Eduardo, em como Roseana Sarney não parece estar eternamente discursando feito seus colegas de profissão. Mulheres não falam demais: falam mais, apenas. E o que parece uma perda de tempo, na verdade é tempo ganho.
Verbalizar o que se sente e o que se pensa é o caminho mais curto para uma tomada de atitude. É uma maneira de clarear idéias confusas, de dar legitimidade ao que vagava clandestino no silêncio, é um atalho para o raciocínio seguinte. Os divãs, pensando bem, servem para isso, para que possamos ouvir a nós mesmos e nos comprometer com nossas declarações e descobertas. Isso pode ser dispensável na hora de comprar um tomate na mercearia, mas faz falta nas relações afetivas e profissionais.
Falamos demais no telefone, na ante-sala do médico, na beira da praia: falamos sem parar e todas ao mesmo tempo, uma carreata de ambulâncias não se faria escutar perto de nós. É treino. Treino para a hora de falarmos do medo de perder alguém, dos sonhos de uma vida, de até onde queremos levar nosso trabalho e nossa paixão. Falamos para sermos entendidas e entender-nos. Falamos abertamente, sem rodeios, sem pausas, e ainda que o silêncio também tenha muito a dizer, sorte daquelas que não temem a própria voz.
A necessidade de desejar (Martha Medeiros - 1º de fevereiro de 1999)
Todos sentem necessidade de amar, e esta necessidade geralmente é satisfeita quando encontramos o objeto de nosso amor e com ele mantemos uma relação freqüente e feliz.
Pois bem. Enquanto vamos juntinhos à feira escolher frutas e verduras, enquanto mandamos consertar a infiltração do banheiro e enquanto vemos televisão sentados lado a lado no sofá, o que fazemos com nossa necessidade de desejar?
Lendo Alain de Botton, um escritor inglês que já foi mencionado nesta coluna, deparei-me com essa questão: amor e desejo podem ser conciliáveis no início de uma relação, mas despedem-se ao longo do convívio. Só por um milagre você vai ouvir seu coração batendo acelerado ao ver seu marido chegando do trabalho, depois de vê-lo fazendo a mesma coisa há cinco, dez, quinze anos. Ao ouvir a voz dela no telefone, você também não sentirá nenhum friozinho na barriga, ainda mais se o que ela tem para dizer é "não chegue tarde hoje que vamos jantar na mamãe". Você ama o seu namorado, você ama a sua mulher. Mais que isso: você os tem. Mas a gente só deseja aquilo que não tem.
O problema da infidelidade passa por aqui. Muitos acreditam que a pessoa que foi infiel não ama mais seu parceiro: não é verdade. Ama e tem atração física, inclusive, mas não consegue mais desejá-lo, porque já o tem. Fica então aquele vácuo, aquela lacuna, aquela maldita vontade de novamente desejar alguém e ser desejado, o que só é possível entre pessoas que ainda não se conquistaram.
Não é preciso arranjar um amante para resolver o problema. Há recursos outros: flertes virtuais, fantasias eróticas, paqueras inconseqüentes. Tem muita gente aí fora a fim de entrar nesse jogo sem se envolver, sem colocar em risco o amor conquistado, porque sabe que a troca não compensa. Amor é jóia rara, o resto é diversão. Mas uma diversão que precisa ter seu espaço, até para salvar o amor do cansaço.
Necessidade de amar x necessidade de desejar. Os conservadores temem reconhecer as diferenças entre uma e outra. Os galinhas agarram-se a essa justificativa. E os moderados tratam de administrar essa arapuca.
Mania de você (Martha Medeiros - 04 de janeiro de 1999)
Nada pior do que ser viciado em alguma coisa. Fumantes, alcoólatras, workaholics, drogados, todos são Ph.D em escravatura. Mas o vício mais nocivo é o vício por outra pessoa, que muitos confundem com amor. Amor de verdade liberta. Vício é jaula.
Você já deve ter dito para uma amiga, ou escutado dela: "isso que você sente é uma doença". Não é outra coisa. Os sintomas são facilmente reconhecíveis. Vocês têm um relacionamento caótico. Brigam 24 horas. Um é de Marte, o outro de Vênus, como diz o título de um livro. Um dia os planetas se chocam e seu mundo desmorona.
Se fosse amor, o que viria depois do rompimento? Revolta, lágrimas, saudade, uma recaída breve, mais lágrimas, mais saudade, até que aos poucos surgiria uma certa paz, a auto-estima voltaria e o amor se transformaria em lembrança. Com o coração às moscas, você sairia em busca de um novo romance e começaria tudo outra vez. Não é um processo rápido, mas é mais ou menos assim.
Vício, não. Se você é viciado em alguém, vai só até a metade do caminho: revolta, lágrimas, saudade e recaída. E pára por aí. Insiste na recaída. A ansiedade faz você cometer loucuras para ter o seu amor de volta, e quando consegue cinco minutos com ele, atira-se com volúpia: fuma, cheira, bebe o cara até a última gota. Depois? Uma inebriante sensação de cura. Não, você não precisa mais dele. Pode muito bem passar sem ele. Você nem o acha tão atraente assim, e volta para casa sentindo-se um Hércules de saias: conseguiu vencer a si própria.
Passam-se então duas semanas e você liga para a companhia telefônica para saber se sua linha está com defeito. O telefone simplesmente não toca! Seu carro também já não obedece suas ordens: dirige-se sozinho para a rua onde mora o querido, só para ver se a moto dele está em frente à garagem. Está. Então ele não voltou para Vênus, continua na cidade. Você começa a suar frio. Sente vertigens. Mastiga o lápis do escritório, derrama café nos colegas, treme ao segurar um copo. Diagnóstico: crise de abstinência. Você o procura. Precisa urgente de uma injeção de carinho na veia.
O final dessa história? Não existe. Ele precisa dela também, caso contrário nem abriria a porta. Reivindica-se a criação urgente de um AA: Apaixonados Anônimos. Assim como tem gente que, para vencer o alcoolismo, evita dar o primeiro gole, algumas pessoas precisam aprender a evitar o primeiro beijo para não reincidir num amor que faz mal à saúde.
As razões que o amor desconhece (Martha Medeiros)
Você e inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes do Woody Allen, do Hal Hartley e do Tarantino, mas sabe que uma boa comedia romântica também tem o seu valor. E bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de musica, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto e imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo esta sem namorado?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrario os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta. O amor não e chegado a fazer contas, não obedece a razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do Cupido do que por uma ficha limpa. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele adora o Planet Hemp, que você não suporta. Ele não emplaca uma semana nos empregos, esta sempre duro e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, mas você não consegue despacha-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, ele adora animais, ele escreve poemas.
Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou murchar, você levou-a para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de MPB, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela e mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Ninguém ama outra pessoa porque ela e educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são referencias, só. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe da, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem as pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas só o seu amor consegue ser do jeito que ele é."
As escolhas de uma vida (Martha Medeiros - 03 de maio de 1999)
A certa altura do filme Crimes e Pecados, o personagem interpretado por Woody Allen diz: "Nos somos a soma das nossas decisões". Essa frase acomodou-se na minha massa cinzenta e de la nunca mais saiu.
Compartilho do ceticismo de Allen: a gente e o que a gente escolhe ser, o destino pouco tem a ver com isso. Desde pequenos aprendemos que, ao fazer uma opcao, estamos descartando outra, e de opcao em opcao vamos tecendo essa teia que se convencionou chamar "minha vida". Nao e tarefa facil. No momento em que se escolhe ser medico, se esta abrindo mao de ser piloto de aviao. Ao optar pela vida de atriz, sera quase impossivel conciliar com a arquitetura. Se e a psicologia que se almeja, pouco tempo sobrara para fazer o curso de odontologia. Nao se pode ter tudo.
No amor, a mesma coisa: namora-se um, outro, e mais outro, num excitante vaivem de romances. Ate que chega um momento em que e preciso decidir entre passar o resto da vida sem compromisso formal com alguem, apenas vivenciando amores e deixando-os ir embora quando se findam, ou casar, e atraves do casamento fundar uma microempresa, com direito a casa propria, orcamento domestico e responsabilidades. As duas opcoes tem seus pros e contras: viver sem lacos e viver com lacos. Escolha.
Morar em Londres ou numa chacara? Ter filhos ou nao? Posar nua ou ralar atras de um balcao? Correr de kart ou entrar para um convento? Fumar e beber ate cair ou virar vegetariano e budista? Todas as alternativas sao validas, mas ha um preco a pagar por elas.
Quem dera pudessemos ser uma pessoa diferente a cada 6 meses, ser casados de segunda a sexta e solteiros nos finais de semana, ter filhos quando se esta bem-disposto e nao te-los quando se esta cansado, viver de poesia e dormir em hotel 5 estrelas. No way.
Por isso e tao importante o auto-conhecimento. Por isso e necessario ler muito, ouvir os outros, estagiar em varias tribos, prestar atencao ao que acontece em volta e nao cultivar preconceitos. Nossas escolhas nao podem ser apenas intuitivas, elas tem que refletir o que a gente e. Logico que se deve reavaliar decisoes e trocar de caminho: ninguem e o mesmo para sempre. Mas que essas mudancas de rota venham para acrescentar, e nao para anular a vivencia do caminho anteriormente percorrido. A estrada e longa e o tempo e curto. Quanto menos a gente errar, melhor.
O que é, o que é? (Martha Medeiros - 3 de janeiro de 2000)
O que é, o que é? Você tem três livros ótimos para começar mas não inicia nenhum. Liga a tevê e se entedia com tudo. Telefona para todos os amigos, fala cinco minutos com cada um e continua angustiado. Descobre três novas espinhas ao se olhar no espelho. Abre o guarda-roupa, constata a bagunça e fecha a porta sem ânimo para arrumar nada. Coloca um disco e não termina de escutar a primeira faixa. Troca de disco e não termina, de novo, a primeira faixa. Desliga o som. Vai para a cozinha, abre uma cerveja e depois de dar dois goles, deixa o copo esquentando no chão da sala. O que é, o que é? É solidão.
O que é, o que é? Você tem três livros ótimos para começar. Escolhe "A Mulher que Escreveu a Bíblia", do Scliar. O livro está tão bom que você esquece que tem televisão em casa. O telefone não toca e você descobre que felicidade até existe. Ao passar pelo espelho do corredor, dá uma paradinha para analisar o shape: oba, a barriga sumiu. Abre o guarda-roupa, constata a bagunça e fecha a porta sem um pingo de culpa. Coloca um disco e canta junto com o John Lee Hooker, quase pode sentir a guitarra nos seus braços. Vai para a cozinha, pensa em abrir uma cerveja mas lembra que barrigas retornam. Pensa dois segundos. Qual o problema de ter uma barriguinha? Abre uma estupidamente. Volta para o livro. O que é, o que é? Não é solidão.
Duas pessoas na mesma condição: sozinhas num apartamento. Só que uma está menos sozinha que a outra. Tem um truque.
Outro dia, lendo um poema inédito de um estudante chamado Marcos Bohn, encontrei ali dois versos que arrebatam pela obviedade: "solidão não é estar só/é não saber ficar só". Todo mundo sabe disso, mas, na prática, muitos têm dificuldade em administrar os recessos involuntários. Todos nós passamos por fases em que estamos sem namorado, os amigos foram para a praia, o saldo bancário está medíocre, chove lá fora e ninguém nos entende. O que é, o que é? Pode ser solidão e pode não ser. Independe de fatores externos. Depende do nosso amor próprio, do nosso humor, da nossa sabedoria. Solidão é ausência da gente mesmo, de ninguém mais.
O benefício da dúvida ? (Martha Medeiros - 30 de julho de 1997)
Corto ou não corto uma franja? Quantas calorias terá aquela mousse de maracujá que está piscando pra mim? Telefono para aquele cafajeste? Ó, dúvida cruel! Todo santo dia nos perguntamos: Será? Será?
Cruel, que nada. Duvidar é preciso. A hesitação é que move o mundo. Se soubéssemos de tudo, a monotonia acabaria com nossas emoções, com nossas divagações, com nossos ensaios de aventura. A dúvida é aliada, prorroga a partida, garante uma sobrevida ao que está prestes a findar. E o que há no fim? A certeza.
Passamos a vida procurando respostas, quando a graça de tudo está nas perguntas. São as inquietações que geram obras de arte e nos impulsionam para desafios. Será possível construir um edifício de 250 andares? Existe vida em Urano? Um dia poderemos voar de São Paulo a Paris em cinco horas? A dúvida é a principal matéria-prima da ciência, da pesquisa espacial, da engenharia genética e da reprodução da espécie. "Filhos, melhor não tê-los, mas se não temos, como sabê-los?" A dúvida de Vinícius de Moraes é a mesma de todos nós, e o mundo segue cada vez mais povoado.
Até aí nada de novo. Mas será a dúvida bem-vinda entre casais apaixonados? Não, respondem em coro os pombinhos. Todos querem ter certeza de que são amados, de que não serão traídos nem jogados pra escanteio.
Uma vez respondida nossa ansiedade, passamos a buscar novas dúvidas.
Será que continuo atraente? Será que alguém ainda moveria montanhas por mim? Quanto tempo me resta?
Não resta dúvida: a certeza é a pior inimiga. É o caminho mais curto para a decadência. Destrói carreiras brilhantes ("sou um gênio, não preciso aprender mais nada"). Ofusca a curiosidade ("já vi tudo o que queria ver nesse mundo"). Engana o coração ("essa mulher nunca vai me deixar"). A certeza é uma víbora.
É por isso que eu digo: um pouquinho de mistério não faz mal a ninguém. É recomendável não fechar portas, nem questões, nem ter medo de contradizer-se. A vida anda em alta velocidade, e dúvidas e certezas se mesclam no caminho, impossibilitando saber onde termina uma e começa a outra. O melhor é viver como se estivéssemos todos ao redor de uma mesa de pôquer. A dúvida pode ser um blefe, mas costuma vencer o jogo.